Sítio de Corça 2, Serpa


Paulo Rebelo, Raquel Santos, Nuno Neto, Miguel Rocha

O sítio de Corça 2 localiza-se na freguesia de Pias, Concelho de Serpa, estando implantado na Carta Militar de Portugal nº 512, (escala 1/25 000), com as coordenadas UTM 25497 1837. Situa-se junto ao Bloco das Amoreiras e do Bloco José dos Olhos, numa encosta orientada sensivelmente Este-Oeste.
Do ponto de vista geológico, o local alvo de intervenção encontra-se situado numa área de argilas, margas, calcários e conglomerados formados no Miocénico, tendo sido os silos/fossas escavados nas margas que se desenvolvem naquela área. A NO desenvolvem-se terraços fluviais e depósitos de vertente, surgindo a oeste da jazida conglomerados, arenitos, margas com congressões calcárias e argilas. Igualmente a oeste desenvolve-se o complexo vulcano-sedimental do Ficalho, onde surgem metavulcanitos básicos (Basaltos, calco-xistos, tufos) e ácidos, bem como mármores e calcários dolomíticos.
Os contextos intervencionados fora identificados pela equipa de acompanhamento arqueológico dos trabalhos de construção da barragem da Amoreira (Serpa), caracterizam-se por algumas estruturas negativas, escavadas no substrato geológico e intervencionadas em duas fases distintas, em Junho e Agosto de 2008.
Na primeira fase, havia sido ainda identificada apenas uma das estruturas existentes. A sua escavação colocou a descoberto um enterramento humano de adulto, em posição fetal, no interior de uma estrutura negativa tipo “silo”, coberto por sedimento e blocos de grandes dimensões de quartzo.
Acompanhado de apenas quatro fragmentos cerâmicos de tipologia não identificável, duas lascas, três núcleos de quartzo e um percutor em quartzito. Este último apresentava vestígios de contacto directo com o fogo, bem como, pela posição em que se situava e tendo em conta o contexto de inumação a que se encontrava associado, pode indiciar que podemos estar perante uma oferta ritual. É ainda de destacar, de um pequeno fragmento cerâmico, amorfo, que evidencia uma decoração em ornatos brunidos (retícula brunida) na superfície externa. Contudo, a sua leitura não é clara, podendo se tratar de um fragmento de cerâmica brunida associada não a contextos da Idade do Bronze, mas a época Calcolítica. No entanto, a datação absoluta obtida enquadra a inumação em 2950±50 BP, ou seja, associada ao Bronze final.
Na segunda fase dos trabalhos foram escavadas duas bolsas em negativo, em cujos enchimentos se recolheu escasso material arqueológico, cuja análise aponta para uma cronologia atribuível ao período Bronze pleno/final.
Assim, inventariaram-se nove fragmentos cerâmicos. Três não permitiram um enquadramento tipológico: dois fragmentos amorfos de parede e um fragmento de pega. Os restantes fragmentos referem-se a porções de bordos, o que levou a uma melhor análise formal. Dois dos fragmentos são de pequenas dimensões, o que leva a que sua tipologia suscite algumas dúvidas, referimo-nos a um esférico e uma taça hemisférica, ambos pertencentes a formas com uma larga pervivência ao longo da Pré-história recente. Já os restantes elementos permitem um melhor enquadramento. Dois deles pertencem a pratos de bordo almendrado, formas relativamente comuns no Calcolítico, perdurando até ao Bronze pleno (CARREIRA, 1994, p. 66). De resto surgem dois fragmentos de taças carenadas, um de carena alta e outro de carena média/baixa, tipologias enquadráveis no Bronze pleno e final. Podemos encontrar paralelos para estes materiais em necrópoles da Idade do Bronze como a da Vinha do Casão (GOMES, et alli, 1986) e da Alfarrobeira (GOMES, 1994) na região de Silves, bem como na necrópole do Pessegueiro na região de Sines (SILVA, SOARES, 1979). Este tipo de artefactos cerâmicos surge igualmente em contexto de habitats como o Abrigo Grande das Bocas na Estremadura (CARREIRA, 1994) e a Cerradinha em Santiago do Cacém (SILVA, SOARES, 1978).
No que diz respeito ao pacote artefactual em pedra lascada, é relativamente homogéneo, sendo a matéria-prima, à excepção de uma lasca tipo “gomo de laranja” em quartzito e quatro elementos classificados como restos de talhe em quartzo hialino, é na sua quase totalidade em quartzo, matéria-prima abundante no local. No que diz respeito às tipologias identificadas estas não permitem um claro enquadramento crono-cultural. Surgem vários núcleos de lascas, na sua maioria poliédricos, um de tendência prismática com apenas uma plataforma de percussão, bem como uma lasca cortical, provavelmente fractura de um núcleo centrípeto. Os núcleos identificados destinavam-se à produção de lascas, não se tendo registado a presença de suportes destinados à obtenção de produtos alongados lâminas ou lamelas. Nota-se igualmente a presença de vários restos de talhe e lascas corticais.
Registou-se igualmente um percutor/bola, de semelhanças morfo-tipológicas muito idênticas aos recolhidos em jazidas da Idade do Bronze como por exemplo a necrópole da Vinha do Casão (GOMES, 1986); e em contextos de habitat em Entre Águas 5 (Serpa), sítio do Bronze final relativamente próximo (SANTOS, et al., 2009). Sendo no entanto de sublinhar que esta tipologia surge frequentemente em contextos Neo-Calcolíticos, como no povoado do Porto Torrão (Ferreira do Alentejo).
Os trabalhos de minimização de impactes sobre o património cultural por parte da EDIA S.A., têm permitido colocar a descoberto na região várias realidades que se podem enquadrar dentro do mesmo tipo de contexto intervencionado agora em Corça 2.
Este tipo ocupação é relativamente comum na região, surgindo por exemplo no Monte da Pita 5 e 6 (Beringel), na Pedreira de Trigaches 2 (Beja), Horta do Albardão 3 (Évora), Monte Cabido 3 (Évora), apresentando normalmente um espólio pobre, geralmente integrável entre o III e o II milénio a.C. Destaca-se o Casarão da Mesquita 3 (Évora) onde foram intervencionadas 49 fossas de perfil oval, duas apresentando inumações em decúbito lateral, associadas a espólio típico da Idade do Bronze: elementos de foice e cerâmica brunida. (SANTOS, et al, 2008)
O sítio de Corça 2 integra-se neste tipo de contexto. Fossas de perfil oval escavadas no substrato geológico. Levanta-se a hipótese de as mesmas, uma primeira fase funcional de armazenamento de bens alimentares e/ou lixos, terem sido usadas funcionalmente como sepulturas, após terem sido desactivadas e preenchidas por sedimentos. Outra hipótese, menos redutora, seria a abertura das fossas a fim de as utilizar como sepulcros. Claro está que levantar esta hipótese levanta outras questões, tais como: porquê a utilização desta tipologia usualmente utilizada numa outra função, como a de armazenamento, ou, ainda, o porquê de só serem conhecidos enterramento em fossas em áreas repletas de outras fossas claramente utilizadas como estruturas de armazenamento? Uma solução prática ou provida de mais significado social?
O sepultamento em fossas tipo silo pode ser interpretado como um acontecimento menor? Conotado com sectores não dominantes da sociedade? O registo, escasso, certo, mostra-nos pouca evidência artefactual. A própria visibilidade é diminuta. O uso do objecto, acompanhados de características reveladoras de si e do que alberga, tão usado na busca da imortalidade e nas estratégias sociais, é pobre, logo, o inumado teria pouca relevância sócio-económica, para a sociedade em que se inseria ou esta seria pouco variada e rica em termos sócio-económicos.

Bibliografia:
• CARREIRA, J. R. (1994), “A Pré-História do Abrigo Grande das Bocas (Rio Maior)”, in Trabalhos de Arqueología da EAM, 2, Lisboa, Edições Colibri, pp. 47-144.

• GOMES, M. V., ET ALII. (1986), “A Necrópole da Vinha do Casão (Vila Moura, Algarve) no contexto da Idade do Bronze do Sudoeste Peninsular”, in Trabalhos de Arqueologia, 2, Lisboa, IPPC.

• GOMES, M. V., ET ALLI (1994), “A Necrópole de Alfarrobeira (S. Bartolomeu de Messines) e a Idade do Bronze no Concelho de Silves”, in Xelb, 2, Silves, Câmara Municipal de Silves.

• SANTOS, Filipe J. C.; AREZ, Luís; SOARES, António M. Monge; DEUS, Manuela de; QUEIROZ, Paula F.; VALÉRIO, Pedro; RODRIGUES; Zélia; ANTUNES, Ana Sofia; ARAÚJO, Maria de Fátima, “O Casarão da Mesquita 3 (S. Manços, Évora), um sítio de fossas “silo” do Bronze/Pleno Final na Encosta do Albardão”, Revista Portuguesa de Arqueologia, volume XI, nº 2, Lisboa, Igespar, 2008, pp. 55-86.

• SANTOS, Raquel; REBELO, Paulo; NETO, Nuno, “Neoépica, Ldª principais intervenções em 2008”, Al-Madan, 2ª série, nº 16, Almada, Centro de Arqueologia, 2009.

• SILVA, C. T. da, SOARES, J. (1978), “Uma jazida do Bronze Final na Cerradinha (Lagoa de Santo André, Santiago do Cacém), in Setúbal Arqueológica, Vol. IV, Assembleia Distrital de Setúbal, pp. 71-115.


Contextos e objectos simbólico-religiosos do Porto Torrão: os ídolos e as placas de xisto


Miguel Rocha , Paulo Rebelo2, Raquel Santos2, Nuno Neto

Resumo: A escavação em área dos sectores I e II do sítio do Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) e as sondagens realizadas no sector III permitiram a recolha contextualizada de diversos ídolos e placas de xisto. A análise das características dos contextos de recolha e dos objectos permite-nos percepcionar a relação existente entre estes elementos, numa tentativa de definir os espaços de actuação e descarte dos objectos mencionados.

Abstract: The excavation in the area of sectors I and II of Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) and the surveys carried out in sector III allowed the contextualized collection of various idols and slate plaques. The analysis of the characteristics of the contexts, and the objects collection, allow us to perceive the relationship between these elements in an attempt to define the performance and discard places of the mentioned objects.

Palavras-Chave: Calcolítico, Porto Torrão, Placas de Xisto, Ídolos

1. Introdução

O sítio arqueológico do Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) foi alvo de duas fases de intervenção arqueológica, entre 2008 e 2010, que pretenderam avaliar e salvaguardar os contextos e estruturas arqueológicas a ser afectados pela construção dos canais de rega da EDIA. A Neoépica, Lda., para além de responsável pela 1ª fase do projecto, no decurso da qual se efectuaram onze sondagens de diagnóstico, teve a seu cargo na 2ª fase a execução dos trabalhos de escavação nos sectores I e II. Estes sectores revelaram um conjunto alargado de fossas que se mostraram documento de várias realidades contextuais, mas também níveis de ocupação, diversos interfaces, uma estrutura habitacional negativa, algumas estruturas positivas e duas secções de cada um dos dois fossos que circundavam o povoado.

Em alguns destes contextos encontraram-se materiais conotados com uma função essencialmente simbólica. Tendo em conta as perspectivas meramente histórico-materialistas, assiste-se a uma realidade cronologicamente enquadrável (salvo a escassa presença de exemplares de taças carenadas e placas de tradição neolítica) na tradição cultural do Calcolítico, numa fase coetânea com o início da produção e trabalho do cobre nos restantes povoados do sudoeste ibérico.

2. Descrição do corpo de dados em análise

2.1 Os Objectos

1. Pto/09.[1249].3368 – Placa de xisto gravada com organização à base de bandas de triângulos preenchidos por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado), com excepção de uma delas. A cabeça da placa é definida por dois olhos solares perfurados, encimados por duas «sobrancelhas» preenchidas com traços de tendência vertical; ao centro um elemento vertical (nariz?) também reticulado, associado a três bandas de tendência horizontal e preenchidas por traços verticais. O reverso também se encontra decorado com uma faixa reticulada circundante dos limites laterais e superior. Dimensões: comprimento 14,2cm; largura 13,3 a 8cm; espessura 1,1 a 0,4cm. Proveniência: Sector I – área I – [1249], enchimento da fossa [1250] (Fig. 1).

2. Pto/09.[1382].8251 – Fragmento de placa de xisto gravada com organização à base de faixas ziguezagueantes preenchidas, em intervalos, por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado), compartimentadas por um traço vertical. Dimensões: comprimento 8,2cm; largura máxima 4,5cm; espessura 0,45cm. Proveniência: Sector I – área J – [1382], enchimento da fossa [1374] (Fig. 2).

3. Pto/09.[1397].8362 - Fragmento de placa de xisto gravada com organização à base de bandas de triângulos preenchidos por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado). Dimensões: comprimento 4,1cm; largura máxima 2,3cm; espessura 0,8 a 0,25cm. Proveniência: Sector I – área J – [1397], enchimento da fossa [1402].

4. Pto/08-09.[398].2874 – Placa de xisto gravada com motivos desordenados na face anterior, feitos de forma tosca, representando linhas ziguezagueantes e outras rectas, paralelas entre si, parecendo formar um só elemento. A face posterior encontra-se preenchida por linhas ziguezagueantes na vertical e, no pólo superior, na horizontal. Encontra-se fragmentada nessa zona. Dimensões: comprimento 11,6cm; largura máxima 5,9 a 5,4cm; espessura 0,5 a 0,4cm. Proveniência: Sector III – sondagem VI – [398], enchimento da bolsa [397].

5. Pto/09.[3172].9441 – Conjunto de três fragmentos de placa/s de xisto gravada/s, um deles com uma perfuração de forma circular, sem organização discernível. Cada um dos fragmentos encontra-se bastante gasto e repleto de incisões. Dimensões: espessura 0,25 a 0,1cm. Proveniência: Sector III – sondagem VII – [3172], enchimento da bolsa [3092].

6. Pto/09.[3174].10484 - Fragmento de placa de xisto gravada com organização à base de bandas de triângulos preenchidos por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado). Dimensões: comprimento 4,15cm; largura máxima 2,7cm; espessura 0,3cm Proveniência: Sector III – sondagem VII – [3174], enchimento da bolsa [3092] (Fig. 3).

7. Pto/09.[1234].10462 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 6,8cm; largura 4,5 a 2,85cm; espessura 3,4 a 1,95cm. Proveniência: Sector I – área H – [1234], enchimento do interface [1166] (Fig. 4).

8. Pto/09.[1234].10461 – Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 7,55cm; largura 4,65 a 3cm; espessura 3,2 a 1,9cm. Proveniência: Sector I – área H – [1234], enchimento do interface [1166].

9. Pto/09.[1249].5317 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 7,85cm; largura 4,9 a 3,1cm; espessura 3,5 a 1,9cm. Proveniência: Sector I – área I – [1249], enchimento da fossa [1250].

10. Pto/09.[1332].7657 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 7cm; largura 4,5 a 3cm; espessura 3 a 1,85cm. Proveniência: Sector I – área J – [1332], depósito zona sul (Fig. 5).

11. Pto/08-09.[311].2832 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 4,3cm; largura máxima 3,5cm; espessura 0,45cm. Proveniência: Sector III – sondagem IX – [311], enchimento fossa.

12. Pto/08-09.[3087].2342 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. . Dimensões: comprimento 7,3cm; largura 4,3 a 2,25cm; espessura 3,1 a 1,65cm. Proveniência: Sector III – sondagem VII – depósito [3087].

13. Pto/09.[138].765 – Fragmento da zona inferior e mesial de ídolo em cerâmica com feição antropomórfica. Dimensões: comprimento 4cm; largura 2,5 a 1,4cm; espessura 1,5 a 1,2cm. Proveniência: Sector I – área H – [138], depósito.

14. Pto/09.[138].766 – Fragmento de ídolo em cerâmica (?) possivelmente antropomórfico, denotando num dos lados esboço da silhueta. Dimensões: comprimento 6,45cm; largura 2,35cm; espessura 1,9cm. Proveniência: Sector I – área H – [138], depósito.

15. Pto/09.[1321].7433 – Ídolo em cerâmica com configuração antropomórfica. Apresenta tronco cilíndrico (exibindo seios), parte superior com duas saliências laterais e base espessa e oval. Dimensões: comprimento 6,3cm; largura 3,3cm (inferior), 1,4cm (mesial) e 3,05cm (superior); espessura 2,3cm (inferior), 1,3cm (mesial) e 1,3cm (superior). Proveniência: Sector I – área J – [1321], depósito na zona norte da área (Fig. 6).

16. Pto/09.[1349].8027 – Fragmento de ídolo em cerâmica com configuração antropomórfica. Revela nariz, olhos e seios. Dimensões: comprimento 7,1cm; largura 2,6cm (inferior), 2,55cm (seios) e 2cm (superior); espessura 1,4cm (inferior), 1,9cm (seios) e 2cm (superior). Proveniência: Sector I – área J – [1349], enchimento da fossa [1348] (Fig. 7).

17. Pto/09.[220].10414 – Fragmento da zona inferior e mesial de ídolo em cerâmica, com feições antropomórficas, apresentando vestígios de um dos seios. Dimensões: comprimento 2,9cm; largura 2,5 a 2,15cm; espessura 1,5 a 1,3cm. Proveniência: Sector II – área L – [220], depósito na zona norte da área.

18. Pto/08-09.[311].2832 - Fragmento da zona inferior e mesial de ídolo em cerâmica, com feições antropomórficas. Dimensões: comprimento 4,3cm; largura 3,8 a 2,05cm; espessura 2,25 a 1,5cm. Proveniência: Sector III – sondagem IX – [311], enchimento fossa [310].

19. Pto/09.[Sup].27 – “Ídolo-gola” em calcário, alongado, de forma cilíndrica com estrangulamento na extremidade superior. Dimensões: comprimento 6,35cm; diâmetro máximo 1,6cm; diâmetro mínimo 1,25cm. Proveniência: Recolha de superfície (Fig. 8).

20. Pto/09.[1249].3367 – Ídolo cilíndrico em calcário. Dimensões: comprimento 4,6cm; largura 1,7 a 1,3cm; espessura 1,6 a 0,8cm. Proveniência: Sector I – área I - [1249], enchimento da fossa [1250].

21. Pto/08-09.[301].783 – Fragmento de ídolo bétilo/cilindro em calcário com forma cilíndrica. Dimensões: comprimento 3,4cm; diâmetro 3,2cm. Proveniência: Sector III – sondagem V - [301], depósito.

22. Pto/08-09.[359].1493 – Fragmento de ídolo bétilo/cilindro em calcário com forma cilindríca. Dimensões: comprimento 3,4cm; diâmetro 3,2cm. Proveniência: Sector III – sondagem X - [359], enchimento da estrutura negativa [330] (Fig. 9).

2.2. Os contextos

1- Sector I – área H – depósito [138] e [1234], enchimento do interface [1166]

Na área H identificou-se uma intensa ocupação de fossas e outras estruturas negativas. Uma das camadas superficiais que cobriam esta realidade era o depósito [138]. A camada [138] continha alguns carvões e aglomerados de pedra calcária de grande e média dimensão sem conexão, assim como algum material arqueológico disperso. Uma das realidades que era sobreposta pelo depósito [138] foi o interface [1166].

O interface [1166] corresponde a uma estrutura negativa, de forma sub-circular, com cerca de 1,30m de diâmetro máximo e 1,05m de profundidade. O interface encontrou-se preenchido por vários depósitos. No enchimento [1234] detectou-se alguma cinza e grande quantidade de material cerâmico e osteológico, surgindo, ainda, restos de escória e vinte fragmentos de cadinhos. De uma forma geral, os enchimentos apresentam materiais que se enquadram naquilo que vem sido definido para contextos da 1ª metade do III milénio (Silva e Soares 1987; Silva, Soares e Cardoso 1995; Valera, 1998; Gonçalves 2003; Valera e Filipe 2006), aparecendo apenas duas taças carenadas (2,22%).


2- Sector I – área I - [1249], enchimento da fossa [1250]

O interface [1250] corresponde a uma estrutura negativa de formato sub-circular, paredes introvertidas e fundo plano, com cerca de 1,70m de diâmetro máximo e 1m de profundidade máxima. A fossa [1250] apresenta três níveis de enchimentos as camadas. Num nível intermédio da fossa encontrava-se o enterramento de mulher jovem em posição fetal, decúbito lateral – [1289]. A cobrir o corpo encontrou-se um conjunto de lajes e dormentes, na sua vez, cobertos pela camada [1249] – enchimento constituído por sedimento castanho-escuro, de consistência compacta e grão médio. Em termos cronológicos, na fossa de enterramento não se registou uma alteração daquilo que já foi referido para o anterior contexto.

3- Sector I – área J – depósito [1321/1332] e enchimentos de fossas [1349], [1382] e [1397]

A área J, em termos contextuais e cronológicos, apresenta realidades semelhantes às áreas H e I. Em concreto, várias estruturas negativas, positivas ou de combustão e até empedrados que documentam uma intensa ocupação do sítio durante o Calcolítico. Esta ocupação levou, em diversas ocasiões, à sobreposição e corte de várias realidades, uma situação que se desenvolve desde o estrato inicial.

Neste contexto, a camada [1321/1332] era coberta e cortada por diversas realidades. Este depósito constitui-se por sedimentos de coloração castanha escura, de consistência compacta e grão médio, com grande quantidade de material arqueológico. As realidades em fossa, que também documentaram objectos com personalidade simbólica, correspondem a estruturas negativas de formato ovalado, circular ou sub-circular, com cerca de 1,10 a 1,88m de diâmetro máximo e 30 a 80cm de profundidade máxima.

4- Sector II – área L – [220], depósito na zona norte da área.

Nesta área identificaram-se várias fossas com enchimentos de materiais típicos do Calcolítico. A camada [220] cobria uma destas entidades - a fossa [238].

5- Sector III – sondagem V – depósito [301] e camada [359], enchimento da estrutura negativa [330]

A escavação da sondagem V revelou uma estrutura habitacional e algumas fossas e outras estruturas negativas. A camada [301] constitui um depósito que cobria todos estes contextos, encontrando-se imediatamente sob a camada agrícola. De uma forma geral, estes contextos enquadram-se no Calcolítico inicial/pleno.

6- Sector III – Sondagem X – enchimento [359] da estrutura negativa [330]

Na Sondagem X do Sector III foram registados contextos de enchimento de uma estrutura negativa de grandes dimensões [330] (com cerca de 1,5m de profundidade e 3m de diâmetro máximo), cujos materiais apontam para uma ocupação do Calcolítico inicial/pleno. O enchimento [359] encontra-se num nível intermédio da estrutura tendo sido aí recolhido abundante material arqueológico.

7- Sector III – sondagem VI – [398], enchimento da bolsa [397]

A Sondagem VII revelou a presença de uma série de interfaces de estruturas em negativo, entre elas a estrutura [397], de formato circular e fundo irregular, cheia apenas pela unidade [398]. Este sedimento de cor castanha escura e consistência média forneceu grande quantidade de material arqueológico enquadrável no Calcolítico inicial/pleno.

8- Sector III – sondagem VII – depósito [3087] e [3172] e [3174], enchimentos da bolsa 3092

A fossa [3092] apresentava grandes dimensões, com 43 enchimentos distintos, dois buracos poste, uma estrutura de combustão e um murete constituído por pedras de pequena dimensão. Tem cerca de 3,30m de diâmetro máximo e 2,50m de altura. Os dois enchimentos analisados, em particular, documentam intromissões e inclusões de margas, cinzas e carvões. O depósito [3087], constituído por sedimentos de cor castanha-escura, consistência média e grão médio-grosso, cobria uma das fossas.

As taças carenadas surgem em várias das unidades, noutras desaparecem por completo. A camada [3172] apresenta o valor mais alto, com cerca de 11%. As formas fechadas, por vezes, também estão ausentes, principalmente em camadas menos volumosas. É evidente o domínio das formas abertas e de tradição calcolítica, com bordos espessados. Surgem igualmente, mas nem sempre, crescentes e placas de tear em termos cronológicos. Perante as evidências é possível pensar em diferentes ambientes culturais. Um primeiro do Calcolítico Inicial e um segundo do Calcolítico Pleno.

9- Sector III – sondagem IX – [311], enchimento fossa [310]

A Sondagem IX possibilitou a identificação de três estruturas em negativo, duas das quais, [314] e [310], se revelaram fossas com grande capacidade de armazenamento. A estrutura [310] é preenchida por três camadas de enchimento, sendo a primeira última delas a [311]. Trata-se de um enchimento composto por sedimento castanho escuro, de consistência compacta de onde se recolheu algum material artefactual, enquadrável no Calcolítico Pleno.

3. Análise e discussão dos dados.

A deposição dos objectos analisados deu-se em realidades contextuais díspares: desde depósitos a enchimentos de fossas/lixeiras (que podem ter sido usadas como silos) ou em recolhas de superfície, bem como, junto de um enterramento em fossa. Em todos os casos, segundo as perspectivas meramente histórico-materialistas, assiste-se a uma realidade cronologicamente enquadrável na tradição cultural do Calcolítico, com presença, em certos casos, de vários elementos ligados à metalurgia e de cerâmica de tradição neolítica.

Nos primeiros casos os ídolos, com excepção dos ídolos-falange e de um outro em cerâmica, e as placas de xisto surgem fragmentados. O seu contexto de recolha e a sua fragmentação enuncia-nos, assim, o local de descarte destes elementos que perderam o seu papel funcional na vida dos indivíduos e da comunidade, quer por causa da sua fragmentação, quer porque se tenham tornado obsoletos. A presença conjunta destes elementos com outros de uso diário como os recipientes e de restos faunísticos permite-nos conceber que não existiu uma segmentação do lixo, segundo critérios de valor social, religioso ou económico.

No que toca ao contexto funerário, a presença junto ao defunto de uma placa de xisto, um ídolo cilindro e de alguns ídolos falange, de várias espécies de conchas (uma das mais representativas amostras) e, talvez, de alguns utensílios ligados à tecelagem, assim como de vários recipientes cerâmicos que se encontravam em excelente estado de preservação, pode remeter-nos para a realização de um ritual religioso associado ao morto e ao espaço de deposição.

No que toca aos valores e características técnicas, os ídolos falange aqui apresentados foram realizados aproveitando a forma natural do osso a qual, através da abrasão, lhes confere uma forma antropomórfica. Estes encontram-se lisos, podendo porventura possuir algum tipo de motivo pintado (Almagro Gorbea 1973:25).

Por sua vez, os ídolos em cerâmica apresentam-se figurados com formas humanas: seios, nariz e/ou olhos. A presença destes três elementos verifica-se apenas num dos exemplares. A constância na protuberância dos seios remete-nos imediatamente para a consideração destas figuras como uma representação feminina.

No seu lugar, as placas de xisto apresentam-se, apenas com uma excepção, fragmentadas. Desta forma, não possuímos uma leitura completa da informação iconográfica que transportavam. Os fragmentos recuperados mostram motivos geométricos gravados por incisão, apresentando um deles gravuras toscamente executadas.

O exemplar completo provém da camada de enchimento da inumação de uma mulher jovem encontrada na fossa [1250], que se vê acompanhada de um ídolo falange, entre diversas outras peças que constituem o seu espólio. Os motivos do anverso desta placa são interpretados como representando uma simbologia própria da Deusa-Mãe, protectora dos mortos e portanto símbolo da vida (Almagro Basch 1959:275; Almagro Gorbea 1973:326) e os do reverso o friso de ídolo almeriense (Gonçalves 2003:260), uma teoria que tem sido alvo de crítica de vários autores que a consideram demasiado “essencialista” (Renfrew & Bahn 2008:225).

Os ídolos bétilo apresentam-se, em geral, com forma alongada e troncocónica (Almagro-Gorbea 1973:63). Os bétilos decorados, provenientes de outros contextos peninsulares, denunciam significados relacionados com a fecundidade (Almagro Gorbea 1973:63). No Porto Torrão, a fragmentação de dois ídolos em calcário não permite perceber, segundo a tipologia de M. J. Almagro-Gorbea, se estes corresponderiam às características dos bétilos ou dos ídolos cilíndricos. Em relação ao “ídolo gola”, apesar de cilíndrico, distingue-se destes por deter estrangulamento numa das extremidades.

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Arqueologia da Arquitectura: interpretar o património edificado

Raquel Santos


Neoépica, Lda.; IAP

raquelgsantos@gmail.com; neoepica@gmail.com



RESUMO

Aplicada já desde a década de 1970 em Itália e Espanha, a Arqueologia da Arquitectura deu os seus primeiros passos em Portugal já em finais da década de 90. O conceito desta disciplina arqueológica define a forma como, apontando o edifício histórico como objecto de estudo, utilizamos o método arqueológico para descrever e interpretar de forma científica e rigorosa a sua evolução cronológica e funcional. A aplicação da Arqueologia da Arquitectura decorre assim da compreensão do edifício como vestígio histórico, fruto de alterações socio-culturais e passível de análise pelo método arqueológico, trazendo sobre ele uma nova perspectiva, baseada em dados concretos, rigorosos e objectivos.

Contudo, muito embora esta disciplina seja já conhecida da generalidade dos profissionais de arqueologia, sente-se alguma falta de informação, aceitação e formação de especialistas, factores decisivos para o incremento de estudos neste âmbito, difusão de metodologias e também para que a sua aplicação possa ser alargada potencialmente a qualquer tipo de edifício, contexto de actuação ou época.

Urge investir na formação de especialistas, diversificar a sua aplicação a contextos de características e cronologias diversas e divulgar os seus métodos próprios de actuação, difundindo assim uma disciplina que em tanto contribui para o conhecimento do património edificado.



ABSTRACT

Applied as early as the 1970s in Italy and Spain, the Archaeology of Architecture took its first steps in Portugal back in the late 90's. The concept of this archaeological discipline sets out how, pointing to the historic building as an object of study, we used the archaeological method to describe and interpret scientifically and strictly its chronological and functional evolution. The application of the Archaeology of Architecture stems from understanding the building as historical vestige, a result of socio-cultural changes and subject to review by the archaeological method, bringing a new perspective on it, evidence-based, rigorous and objective.

However, although this discipline is already known to the generality of professional archaeologists, feels a lack of information, acceptance and training of specialists, key factors in the increase of studies in this area, dissemination of methodologies and also for their application being potentially extended to any type of building, context of action or time.

It is urgent to invest in training of specialists, diversify the contexts of application and disseminate their own methods of operation, thus spreading a discipline that contributes so much to the knowledge of the built heritage.



Palavras-Chave: Arqueologia da Arquitectura, Património Edificado, Metodologia



A Arqueologia da Arquitectura (AA), uma disciplina de criação crescente que se encontra ainda a dar os primeiros passos em Portugal, surge em Itália, na década de 70 do século XX, expandindo-se depois um pouco por toda a Europa. A aplicação dos seus métodos em Espanha começa a ter lugar a partir dos anos 80 e em Portugal apenas no final da década de 1990. Não obstante ter já passado mais de uma década desde a sua introdução em Portugal, verifica-se ainda actualmente alguma resistência na sua aplicação, falta de informação e formação junto dos profissionais competentes e uma tendência clara para fazer incidir a sua actuação em contextos específicos ao invés de uma aplicação generalizada no âmbito de qualquer intervenção sobre património construído. Quer em Portugal como em outros países da Europa, as intervenções de AA ocorrem ainda preferencialmente em edifícios de cariz religioso ou militar, nomeadamente igrejas, conjuntos monásticos, castelos e fortalezas; na sua quase totalidade compostos por estruturas construídas em pedra; e na esmagadora maioria de cronologia medieval ou moderna; sendo geralmente edifícios classificados, que sofrem intervenções de conservação e restauro ou reabilitação, usualmente a cargo de instituições públicas e ao abrigo de financiamentos estatais ou europeus.

Por definição, a AA é uma vertente da Arqueologia através da qual se elabora a história de um edifício. Para tal, aplica uma metodologia arqueológica, rigorosa e crítica, ao estudo de um edifício, considerado ele próprio como objecto histórico, passível de análise arqueológica, gerando posteriormente modelos interpretativos rigorosos e cientificamente fundamentados.

O seu objectivo mais lato será o registo da sequência temporal e histórica do edifício e consequente produção de conhecimento histórico, mas engloba igualmente objectivos de ordem mais específica como a transmissão social do conhecimento adquirido ou a conservação e manutenção dos elementos analisados.

Para cumprir os seus objectivos, uma intervenção no âmbito da AA deverá seguir uma metodologia própria, adaptável a casos diversos e contextos específicos, que permita obter o máximo de informação com os meios técnicos e humanos disponíveis para a intervenção (tempo, equipa, verba, etc.), devendo ainda basear-se no tipo e grau de precisão do estudo que se pretende efectuar.

Assim, qualquer equipa de trabalho em AA deverá incluir o maior número possível de especialistas nas diversas áreas envolvidas, tais como arqueólogos, historiadores, historiadores de arte, arquitectos, conservadores-restauradores, arquivistas, desenhadores, fotógrafos, topógrafos, etc.

Numa primeira fase, de pesquisa prévia, será essencial para a equipa munir-se das ferramentas disponíveis para o conhecimento do edifício a intervencionar, nomeadamente fontes impressas ou documentais, gravuras, quadros, manuscritos, tradições orais, processos de obra ou qualquer outro tipo de fonte que forneça informação útil à análise do edificado.

Posteriormente, o trabalho de campo irá iniciar-se com o levantamento gráfico e fotográfico do edifício ou conjunto edificado, que deverá ser tão pormenorizado quanto possível, nomeadamente representando fielmente os elementos e aparelhos construtivos. Este será o ponto de partida para a análise parietal uma vez que é no levantamento gráfico que se irão identificar e registar as unidades estratigráficas murárias, os elementos arquitectónicos e as fases construtivas.

Na fase seguinte, de análise parietal, deverão ser individualizadas, ordenadas e datadas as fases construtivas, destrutivas e reconstrutivas (Caballero Zoreda 2009), contextualizando todos os elementos e acções no seu contexto estratigráfico. Todas as unidades estratigráficas murárias (elementos construtivos tais como portas, janelas, escadas, vãos, assim como diferentes aparelhos de construção, materiais constituintes, estruturas de condenação ou interfaces) deverão ser identificadas, numeradas, registadas e descritas numa ficha analítica própria (Fig. 1), para que posteriormente, numa análise global do conjunto, se possa fazer a análise das relações estratigráficas, a sua interpretação, atribuição cronológica e aproximação funcional. Nesta fase far-se-á uma descrição completa, sequenciada e neutra da estratificação, diferenciando etapas de construção e reconstrução do edifício e reunindo-as num diagrama de forma a ordenar e datar essas fases e elementos, um processo que deverá obedecer, grosso modo, aos princípios avançados por Harris (Harris 1975: 109-121, 1979: 111-117, 1991), embora com algumas adaptações.

Tendo por base as ferramentas de análise adquiridas – documentação gráfica e fotográfica, leitura paramental, fichas de análise, memória descritiva – poder-se-á elaborar um modelo interpretativo do edifício, tendo presente a evolução cronológica e funcional dos seus espaços. O modelo irá conter as listas de todas as unidades estratigráficas identificadas, agrupadas por actividades e estas por fases de construção, permitindo uma interpretação cronológica, segundo a sequência temporal apurada, e funcional, através da compreensão dos espaços e suas alterações ao longo do tempo (Caballero Zoreda 2009a: 13).

O conhecimento profundo do edifício irá ainda permitir inferir considerações acerca da sociedade e contexto social que lhe deu origem, dos seus habitantes, meio envolvente, condições sociais, económicas, ambientais ou outras que poderão ter influenciado a sua construção, destruição ou transformação.

A AA apresenta-se assim como disciplina de desenvolvimento recente que carece de divulgação e sistematização metodológica, não apenas no meio social como também entre os profissionais de Arqueologia, um problema decorrente da falta de formação específica nesta vertente. Da necessidade de sistematização metodológica decorre a criação de um Diagrama de Actividades (Fig. 2) que pretende, de forma sintética, organizar e sequenciar as diversas fases de trabalho em AA e sua adaptação a características específicas quer da intervenção em si como do próprio edifício ou conjunto edificado, estipulando ao mesmo tempo os requisitos mínimos a contemplar e aqueles que seriam os ideais.



Para empreender um trabalho arqueológico em qualquer tipo de edifício histórico ou conjunto edificado, seja ele classificado ou não, qualquer que seja o seu material construtivo ou cronologia, será sempre necessário considerar o motivo que ocasiona essa intervenção, a partir do qual se deverão estipular os seus parâmetros mínimos. Esta motivação poderá estar relacionada com obras de remodelação ou de conservação e restauro ou decorrer de uma intervenção arqueológica no subsolo que tenha colocado determinadas estruturas ou edifícios a descoberto, assim como de um projecto ou intenção previamente existente de destruição ou demolição de um dado conjunto edificado.

As condicionantes comuns a todos os trabalhos desta natureza serão os prazos e verbas disponíveis e ainda o facto da intervenção incidir sobre a totalidade ou apenas parte do edifício. Dispondo de um prazo curto e uma verba reduzida será necessário adaptar o tipo de estudo a efectuar bem como a equipa afecta. Mas se for possível usufruir de um prazo alargado e elevados meios financeiros, tanto a equipa como o tipo de estudo deverão ser dimensionados em conformidade. Para efectuar um estudo aprofundado apenas será necessário que um dos meios seja alargado (prazo ou verba), uma vez que a equipa poderá ser aumentada para efectuar mais tarefas em menos tempo, da mesma forma que uma equipa reduzida poderá efectuar as mesmas tarefas num maior espaço de tempo.

No que respeita à extensão da intervenção, verificamos que o facto de esta incidir apenas em parte do edifício ou conjunto edificado irá inviabilizar à partida um estudo exaustivo, uma vez que ele será sempre fraccionado em relação à totalidade.

Ao planear o trabalho arqueológico deverá assim ser estipulado o tipo de estudo que se pretende efectuar, de acordo com o grau de pormenor exigido: (1) um simples rastreio, rápido e económico (no que diz respeito a meios financeiros, humanos e prazos); (2) um levantamento, que conta já com alguma precisão em termos de representação do edifício e seus momentos construtivos; (3) um estudo aprofundado, que exige meios alargados; (4) ou ainda um estudo exaustivo, que irá incidir sobre todos os aspectos do edifício, nas mais diversas especialidades. A decisão será tomada de acordo com o motivo da intervenção e com os meios envolvidos. Se se tratar de um projecto de restauro, poderá bastar um simples rastreio ou levantamento. No entanto, se estiver prevista a demolição total do edifício, só um estudo aprofundado ou mesmo exaustivo poderá responder a todas as questões formuladas e permitir a criação de um modelo interpretativo válido e completo que será no futuro a única fonte de informação acerca do edifício. Se os meios envolvidos forem reduzidos dificilmente é possível efectuar um estudo aprofundado e se forem alargados é preferível esgotá-los numa metodologia mais exaustiva ao invés de efectuar um simples rastreio.

No que diz respeito à definição da equipa afecta ao trabalho, esta estará intimamente ligada quer aos meios disponíveis, quer ao tipo de estudo estipulado. Se os prazos e as verbas forem reduzidos, a equipa sê-lo-á também forçosamente. Já se os meios forem alargados e se pretender efectuar um estudo exaustivo, a equipa deverá contar com mais elementos e de diferentes especialidades. O próprio motivo da intervenção também terá interferência na definição da equipa: no âmbito de um projecto de restauro será sempre necessário contar com Arquitectos e Conservadores-Restauradores; no caso da demolição do edifício a intervenção arqueológica não irá necessitar do trabalho destes profissionais, nem os seus dados, de uma forma geral (embora o contrário fosse desejável), serão úteis para o trabalho de Arquitectura a efectuar, eventualmente, na mesma área.

Estipulado o plano de intervenção, os meios humanos afectos e o tipo de estudo a realizar, irão iniciar-se as diversas fases do trabalho arqueológico, sempre presentes qualquer que seja o tipo de estudo ou meios disponíveis.

A pesquisa prévia será a primeira dessas fases e deverá incluir, no mínimo, uma pesquisa bibliográfica sobre o local. A análise bibliográfica poderá, consoante o tipo de estudo e os meios disponíveis, ser completada com uma pesquisa documental, iconográfica, oral ou outra.

No caso de o edifício ter sofrido remodelações recentes, nomeadamente ao nível dos rebocos e demais revestimentos, o trabalho arqueológico irá contar com uma intervenção directa sobre o edifício a fim de possibilitar a observação dos seus paramentos. As sondagens parietais serão o meio mais expedito. No entanto, uma picagem integral das paredes permite uma visão de conjunto. Já as sondagens de subsolo vêm acrescentar informação acerca da ocupação e uso do espaço impossível de obter apenas com base na estrutura edificada. A realização de picagens integrais e de sondagens no subsolo estará sempre condicionada pelos meios disponíveis, extensão da equipa e tipo de estudo. Se se pretende efectuar outro tipo de estudo que não o rastreio e o edifício não apresenta as superfícies paramentais visíveis, terá de existir intervenção directa, tão detalhada quanto os meios o permitirem.

A fase de levantamento é indispensável em qualquer tipo de intervenção, quaisquer que sejam os meios disponíveis. Num simples rastreio poder-se-á efectuar apenas um levantamento fotográfico, pois este será o mínimo essencial para a representação do edifício. Outro tipo de estudo necessitará de um levantamento mais detalhado, gráfico ou topográfico, levado a cabo por meios manuais ou tecnológicos, conforme o nível de pormenor exigido e os meios financeiros e humanos disponíveis. Os prazos terão influência na escolha do tipo de levantamento a realizar no sentido em que o levantamento gráfico manual será necessariamente mais demorado que um levantamento fotográfico ou mesmo um levantamento gráfico efectuado com meios tecnológicos. No entanto, estes meios serão sempre mais dispendiosos, ao mesmo tempo que exigem técnicos especializados, habilitados para os operar e deles extrair os dados adquiridos.

A análise paramental é também indispensável numa intervenção deste âmbito, uma vez que é ela que, na prática, proporciona os dados para a compreensão do edifício. A leitura paramental será efectuada com base nos meios disponíveis e nas fases anteriores do trabalho. O tipo de estudo a realizar, o seu prazo e verba ditarão uma leitura mais ou menos aprofundada, condicionada pela existência ou não de revestimentos parietais e pela realização ou não de picagens integrais dos paramentos. Idealmente, deverá ser realizada no local, com a observação directa das estruturas murárias. Não obstante, será possível levar a cabo a análise parietal com base no levantamento gráfico ou fotográfico. De uma forma geral, esta análise irá incluir a individualização de Unidades Estratigráficas Murárias, identificadas no levantamento produzido e descritas em fichas próprias para o efeito. Mas poderá também contar com o agrupamento dessas unidades em fases construtivas, com a identificação dos materiais utilizados e de tipologias de aparelhos murários, ou outro tipo de elementos tais como as marcas de canteiro, por exemplo.

Terminado o trabalho de campo, teremos diferentes instrumentos de análise consoante o tipo de estudo efectuado, nomeadamente o levantamento fotográfico e a leitura paramental, bem como o levantamento gráfico, caso tenha sido efectuado. Possuiremos igualmente diversos indicadores cronológicos: (1) a cronologia relativa, dada pela simples observação das estruturas e pela pesquisa bibliográfica efectuada; (2) a estratigrafia murária, presente qualquer que seja o tipo de trabalho; (3) a análise tipológica, realizada directamente no campo ou posteriormente, com base no levantamento efectuado; e (4) as fontes bibliográficas, que contêm na maior parte dos casos informação igualmente relevante para a compreensão do edifício. De acordo com os meios disponíveis e a intervenção de campo levada a cabo, poder-se-á ainda contar com: (1) cronologias absolutas, que requerem não só meios financeiros relativamente avultados, como também a recolha prévia de amostras dos materiais passíveis de datação por métodos absolutos; (2) estratigrafia observada no subsolo, no caso de terem sido efectuadas sondagens de subsolo; (3) análise estilística, que irá sobretudo depender das próprias características do edifício estudado, mas também das competências dos profissionais envolvidos; (4) análises físico-químicas que, dependentes dos mesmos factores que as cronologias absolutas, poderão fornecer informações relevantes acerca da constituição dos materiais utilizados; e (5) outro tipo de fontes, como as iconográficas ou orais, as quais, a existir, deverão ser confrontadas e confirmadas com os dados obtidos directamente a partir do edifício.

Chegamos assim à compilação dos dados recolhidos através da intervenção com vista à criação de um modelo evolutivo do edifício, o qual será tão detalhado quanto mais forem os instrumentos de análise e indicadores cronológicos a utilizar. O modelo evolutivo simples, criado a partir de dados escassos como aqueles recolhidos num simples rastreio, poderá ser completado com uma análise cronológica alargada, contendo não só as fases construtivas do edifício como também o processo de construção presente em cada uma delas; uma análise funcional, dada pela observação dos espaços internos, de circulação e visibilidade interior, por exemplo; e uma análise sociocultural, mais ou menos abrangente, essencial para atingir aquele que é o objectivo mais lato da Arqueologia: o conhecimento do Homem. A análise sociocultural poderá ser efectuada com base em quaisquer dados recolhidos, mais ou menos abrangentes, daí resultando que, num simples rastreio, com poucos dados objectivos, essa análise irá ter uma componente especulativa maior do que aquela que terá ao tomar por base uma maior quantidade de informação fiável, retirada directamente do edificado, resultante de um estudo aprofundado ou exaustivo. Quanto mais detalhadas forem as análises efectuadas, mais preciso e completo será o modelo interpretativo final.



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Necrópole Islâmica de Beja




Reportagem: À procura de ossos em Beja (vídeo)
26-02-2011
Por Joana Tadeu

Raquel Santos e a equipa de arqueologia da empresa Neoépica foram contratados pela Parque Escolar, um projecto de modernização da rede pública de escolas secundárias, para acompanhar as obras da Escola Secundária Diogo Gouveia, em Beja. O edifício já antigo e a localização dos trabalhos - no centro da cidade alentejana - faziam prever a necessidade de apoio arqueológico. Mas a descoberta foi surpreendente: a maior necrópole islâmica do país.
Em Novembro de 2009 encontraram o primeiro achado. Um silo com cerca de 500 anos, utilizado para depósito de cereais e, depois de inactivo, para lixeira, que atravessava um cemitério islâmico com cerca de mil anos e de onde já foram recolhidos 250 esqueletos.
Maria Luís, antropóloga, foi imediatamente chamada à escavação.
“Só os antropólogos podem levantar ossadas humanas”, explica Raquel
Santos. Os indivíduos tinham sido enterrados deitados de lado, em
sepulturas muito estreitas e compridas. “Também encontrámos alguns
enterramentos cristãos, onde surgem deitados de costas, como é para nós habitual”, diz a arqueóloga.
“Os enterramentos são exumados, etiquetados pela especialista que os identifica e depois são trazidos para a nossa empresa, limpos e armazenados”, continua. Nos cemitérios islâmicos não se encontram espólios, porque não fazia parte da cultura enterrar os entes queridos com objectos familiares. “Mas os silos são um óptimo sítio para recolher peças de cerâmica e ferramentas usadas”, conclui Raquel Santos.
Quantos corpos estão naquele armazém? Os arqueólogos nunca fizeram as contas. E não têm medo de maldições? “Não somos supersticiosos. Não podemos ser!”, diz. “Mas às vezes...”, hesita a arqueóloga: “às vezes há enterramentos que puxam pelos nossos sentimentos. Somos muito frios no nosso trabalho, mas quando se encontra uma mãe enterrada com o seu bebé recém-nascido é difícil ficar indiferente”, relembra a arqueóloga.
Quando encontra apenas algumas ossadas, a equipa dá nomes aos indivíduos desenterrados. “Normalmente é, por brincadeira, o nome de alguém da equipa ou então de um arqueólogo famoso”, explicam.
Alguns ficam para a história: em Cascais a equipa encontrou um esqueleto que segurava na mão esquerda um instrumento de trabalho igual a um utilizado na arqueologia. “Desse nunca mais nos vamos esquecer”, conta Nuno Neto, membro da equipa. “O dono da obra disse que era o último arqueólogo que lá tinha andado a escavar”.
O tamanho do cemitério e o número de indivíduos enterrados nunca serão conhecidos, porque não é possível escavar uma necrópole completa, apenas o local em obras. Até porque quem financia, quase na totalidade, o trabalho arqueológico, são as empresas de construção civil.
“É a lógica do poluidor-pagador: quem perturba os vestígios arqueológicos financia a sua salvaguarda”, diz a especialista. O trabalho tem de ser simbiótico: “A obra não pára por nossa causa, só mudam de sítio os trabalhos e atrasa-se sempre um bocadinho.” Estes, estão mesmo para terminar. Em Março, a equipa Neoépica arruma as ferramentas e acaba o trabalho de campo.
Depois escreve-se um relatório com fotografias ou desenhos de tudo o que foi recolhido. Limpar, etiquetar, descrever e conservar tudo em invólucros individuais. Algumas peças - jarros, taças e lamparinas ou ferramentas feitas de ossos de animais- irão para exposição na escola Diogo Gouveia. Mas os esqueletos não.
“Não sabemos quem vai ver os enterramentos e vai ficar impressionado. Não é boa ideia expor esqueletos de pessoas reais numa escola. Talvez alguns placares com fotografias e informações”, diz Raquel Santos.
Mas manter as peças como são descobertas não é fácil, até porque arranjar espaço e maneira de as conservar e armazenar é cada vez mais complicado. Paulo Rebelo, arqueólogo da empresa explica: “Até já há quem proponha voltar a enterrar os espólios!” 

Cerâmicas Medievais do Alto do Cidreira - Cascais

Poster apresentado no encontro O Garb Al-Ândalus - Problemáticas e Novos Contributos em Torno da Cerâmica. Organizado pelo Campo Arqueológico de Mértola, e realizado nos dias 15 a 16 de Maio de 2009 em Mértola.  

Localização e contexto

O conjunto cerâmico agora apresentado foi recolhido durante os trabalhos arqueológicos levados a cabo na Zona Especial de Protecção da villa romana do Alto do Cidreira, situada em Carrascal de Alvide, freguesia de Alcabideche, Concelho de Cascais, e localizada na Carta Militar de Portugal nº 429 – Cascais.

Esta é uma zona que apresenta vestígios de ocupação humana desde o Neolítico/ Calcolítico, com particular incidência na época romana. A época medieval está representada pela ermida de Nossa Sra. do Bom Sucesso e pelos silos agora identificados.

Os trabalhos de campo foram iniciados com a abertura de valas de diagnóstico mecânicas que cortaram o terreno, permitindo a obtenção da estratigrafia do local e a detecção expedita de possíveis vestígios arqueológicos, escavados manualmente em seguida. Os materiais em estudo correspondem à zona designada por Alto do Cidreira III, uma dos cinco áreas intervencionadas pela empresa NeoÉpica Lda. entre Abril e Novembro de 2007. Com a abertura das valas diagnóstico neste sector foram detectadas algumas interfaces de estruturas negativas escavadas no substrato geológico, as quais ditaram o alargamento da área sondada para cerca de 70m2, escavando-se manualmente as cinco interfaces aí identificadas.

Os silos

Todos os silos apresentam uma forma irregular com tendência circular e com perfis tendencialmente sub-hemisféricos de fundo plano, à excepção de um que apresenta perfil tipo saco.

Os silos [802], [803] e [804] foram, após o seu abandono, utilizados como lixeiras, surgindo material cerâmico pertencente a recipientes de armazenamento e confecção de alimentos e sobretudo material de construção como telha e tijolo. A par deste material surgiu ainda escasso material malacológico e osteológico. O silo [804] foi o que revelou um maior número de material arqueológico, surgindo inclusive junto ao fundo um enterramento de cão em conexão anatómica.

Os silos [805] e [806] foram, quase exclusivamente, preenchidos com pedras, algumas delas aparelhadas, indiciando apenas a preocupação de os encher o mais rápido possível, não revelando praticamente nenhum material arqueológico excepto alguns fragmentos de telha e tijolo.

As cerâmicas

No decurso da escavação manual dos cinco silos detectados no Alto do Cidreira III foram recolhidas cerca de cinco centenas de fragmentos cerâmicos, bem como material osteológico, malacológico e ainda algum espólio metálico em número reduzido. O registo de cerâmica romana é representado por fragmentos de terra sigillata africana e de terra sigillata Sud-Gálica, tratando-se de pequenos fragmentos em depósito secundário, possivelmente provenientes da villa romana situada nas proximidades. Da totalidade do espólio recolhido foram seleccionados para este estudo os 26 números de inventário referentes a cerâmica de cronologia medieval: dois conjuntos de telha, um composto por 16 fragmentos e outro por mais de 50, ambos com alguns elementos ostentando decoração penteada e digitada; um conjunto de mais de 50 fragmentos de tipologia indeterminada sem qualquer tipo de decoração; 9 fragmentos de tipologia indeterminável com decoração pintada; e os restantes correspondentes a peças de tipologia identificável, uma delas com decoração.

Em relação à tipologia dos materiais arqueológicos identificados, trata-se sobretudo de recipientes de cozinha, nomeadamente uma candeia, três cântaros, uma jarra, um jarro, sete panelas e cinco taças. Algumas destas peças ostentam pintura a branco, vermelho ou cinzento sobre engobe acastanhado.

No que diz respeito às cronologias, surgem cerâmicas datáveis desde o século IX até aos séculos X/XI. Destacam-se uma panela de bojo globular com bordo extrovertido, com paralelo em Palmela em níveis datáveis do século IX/X, sete fragmentos de recipientes decorados com bandas horizontais, verticais e ondulantes, pintadas a branco ou vermelho, integrados também em Palmela em contextos idênticos, referentes aos séculos IX e X (FERNANDES, 2004, p.184); também um fragmento com decoração em tons de cinzento, com paralelos a partir de meados do século XI no Algarve oriental (CATARINO, 1998, Vol. II, p.824) e em Silves, com datações que recuam aos séculos VIII e IX (GOMES R. V., 1988, p.90-92). Com excepção de um cântaro, todos os outros fragmentos pintados se resumem a fragmentos amorfos cuja tipologia não foi possível identificar, com cronologias que remontam possivelmente aos séculos IX e X.

Conclusões

Os vestígios de materiais de tradição islâmica estão relativamente bem representados, embora a sua maioria não permita a identificação tipológica dos mesmos.

O seu enquadramento cronológico é difícil, uma vez que a totalidade do espólio cerâmico exumado é constituída por utensílios de utilização comum, de elaboração regional e de larga prevalência temporal. Podemos contudo situá-los, grosso modo, entre os séculos IX e XI.

O aparecimento de materiais de cronologia romana no interior dos silos deve-se à proximidade destes com a villa romana do Alto do Cidreira, que se desenvolve a Oeste do local alvo de intervenção.

A freguesia de Alcabideche, assim como as restantes que compõem o Concelho de Cascais é rica em vestígios de ocupação humana. Desde o Neolítico/Calcolítico e ao longo dos séculos, o Concelho foi intensamente ocupado, sendo a maior parte dos vestígios arqueológicos referentes a épocas mais recuadas. Neste cenário, o conjunto estudado apresenta-se relevante para a compreensão da influência islâmica na área de Cascais.

Poster diversas intervenções

Poster referente a diversas intervenções de salvaguarda e minimização de impactes no âmbito da implantação da rede de rega de Alqueva.

Participação no V Encontro de Arqueologia Peninsular

Participação no V Encontro de Arqueologia Peninsular, a realizar em Almodôvar, nos dias 18 a 20 de Novembro. Estando prevista a apresentação de duas comunicações: sobre os contextos medievais islâmicos intervencionados na Escola Diogo Gouveia (Beja); e sobre os recipientes cerâmicos de uma das cabanas do sítio da Idade do Bronze final de Entre Águas 5 (Serpa).  

Encontro estruturas de produção e transformação no mundo rural romano do Alentejo Interior


Participação no Encontro estruturas de produção e transformação no mundo rural romano do Alentejo Interior, colóquio organizado pela Dryas Arqueologia com o Apoio da EDIA S.A. e que decorreu nos dias 17 e 18 de Junho na cidade de Beja. 

A Neoépica apresentou uma comunicação referente a dois sítios intervencionados na região de Évora e Cascais, contextos ligados a estruturas de condução de água, que ilustram a importância da água no mundo romano.     

RESUMO
Estruturas de condução de água: Quinta Nova 2 - Évora. Paralelismos com o aqueduto da Villa romana do Alto da Cidreira (Cascais).

A estrutura de condução de água de época romana de Quinta Nova 2 (Évora) foi descoberta aquando do acompanhamento arqueológico da construção da Rede Viária do Aproveitamento Hidro-Agrícola do Monte Novo. Os elementos estruturais intervencionados, apesar de algo destruídos, permitiram o entendimento de materiais, técnicas e métodos adoptados na sua construção.

O paralelismo regional para este tipo de estruturas, de tipologia semelhante (Horta dos Coelhos, S. Manços) ou díspar (Quinta Nova 1, Casarão da Mesquita 2 e Monte dos Cunqueiros), bem como a sua relação com estruturas de condução de água em outras regiões como na zona de Cascais (Alto do Cidreira), para além do cruzamento da informação arqueológica com fontes clássicas como a obra de Vitrúvio (De Architetura), permitiram leituras ao nível das técnicas construtivas adoptadas em época romana na região do Alentejo e Lisboa.

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Procura-se desta forma fomentar a comunicação e troca de ideias entre todos os interessados.

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Natal 2009

A Neoépica deseja a todos os seus clientes e colaboradores um Feliz Natal e um Excelente Ano de 2010.

Povoado Pré-histórico de Porto Torrão - Ferreira do Alentejo












Iniciada em Outubro de 2008, com decapagem mecânica e algumas sondagens diagnóstico, a intervenção arqueológica no Povoado Neo-Calcolítico de Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) tem a sua segunda fase em curso desde Julho deste ano. Cedo se compreendeu que, para minimizar o impacte da construção de novos canais de rega que irão atravessar aquele local havia que escavar integralmente a área afectada, com cerca de 3000m2. Tendo em conta a vastidão de vestígios que aí se haviam já identificado, optou a EDIA por adjudicar os trabalhos a efectuar no Sector I e II à NEOÉPICA, ficando o Sector III-Oeste a cargo da ARCHEOESTUDOS (www.archeoestudos.com) e o Sector III-Este, IV e VI a cargo da CRIVARQUE (www.crivarque.com).
Os trabalhos desenvolvidos até à data permitiram a identificação nos Sectores I e II de quatro troços de fosso com cerca de 6m de profundidade, que fariam a delimitação do espaço do povoado. Na sua zona interna encontramos, para além de inúmeras fossas escavadas não só no substrato geológico, mas também naquele que seria o nível de circulação em época Neo-Calcolítica, horizontes de ocupação constituídos por lareiras, pequenas fossas, fornos cerâmicos, áreas de moagem, buracos de poste que suportariam estruturas perecíveis. Todas as realidades que seriam de esperar num povoado desta época e desta dimensão, pese embora o anormal estado de conservação do sítio que se situa, não obstante, em terreno lavrável.
Mas a estrutura mais surpreendente que nos deixou a população que ali viveu há 4 milénios foi o monumento funerário construído no espaço entre dois fossos e ocupando parte do fosso exterior, numa altura em que, comprovadamente, os fossos estariam já em desuso e plenamente colmatados.
Que surpresas nos trará ainda a continuidade da intervenção?




7º Encontro de Arqueologia do Algarve

Apresentação no 7º Encontro de Arqueologia do Algarve, da comunicação "A Cultura Material e Diacronia dos Silos da Rua do Jardim n.º 21 (Lagos), intervenção integrada no 6º painel - O Algarve Moderno e Contemporâneo.

Datações Absolutas do Sítio do Bronze Final de Entre Águas 5 (Serpa)

Entre Águas 5 é um dos povoados abertos com ocupações do Bronze Final, que a investigação arqueológica recente tem permitido identificar nestes últimos três anos, a maior parte deles sujeitos a intervenções de campo resultantes das medidas de minimização tomadas no âmbito da construção da rede de rega ligada ao empreendimento do Alqueva. Como é usual neste tipo de sítios, a quase totalidade dos vestígios preservados corresponde a estruturas negativas escavadas no substrato geológico. Diversas amostras orgânicas (madeiras carbonizadas e fauna mamalógica) foram recolhidas durante a intervenção de campo em Entre Águas 5 e que, além das análises antracológicas e zoo-arqueológicas a que vão ser sujeitas, conforme o caso, irão entrar num programa, já em curso, de datação pelo radiocarbono. Foram, assim, já obtidas seis datas de radiocarbono, cuja representação gráfica se encontra na figura:Estas datas apontam para uma contemporaneidade dos fundos de cabana das sondagens VIII e X e das fossas das sondagens V e VI, enquanto que o fundo de cabana da sondagem II será, provavelmente, mais antigo.

António Monge Soares

Suporte Quadrangular

video

Peça recolhida no sítio arqueológico do Bronze final de Entre Águas 5 (Serpa), de pequenas dimensões, cerca de 8 x 8cm, com uma profundidade de cerca de 7 cm, sem fundo e de bordos boleados, com as 4 superfícies externas profusamente decoradas. Essa decoração é caracterizada por motivos geométricos, bem marcados através de traços incisos, feitos com a pasta ainda fresca.

Projectos de Investigação


Para a Neoépica, a acção sobre o património cultural não se esgota no trabalho de campo, encarando os sítios e artefactos sob a sua responsabilidade como elementos na formulação de conhecimento científico válido. Assim, como entidade que assume o seu papel de responsável pela memória colectiva, procura o desenvolvimento de projectos de investigação em parceria com entidades públicas e privadas, dando desta forma a conhecer à comunidade científica e ao público em geral os dados resultantes das suas intervenções.


Seguindo esta política encontram-se em curso diversos projectos de investigação, destacando-se:
  • Estudo dos dados resultantes da intervenção na ZEP da villa romana do Alto do Cidreira - Cascais. Intervenção realizada em 2007 que levou à recolha de uma série de importantes elementos de diferentes contextos e cronologias. Encontra-se em fase de estudo a cabana/abrigo de cronologia Campaniforme, o troço do aqueduto romano colocado a descoberto, bem como a análise antropológica e artefactual da necrópole romana situada nas proximidades.
  • Estudo sistemático do sítio do Bronze final de Entre Águas 5 - Serpa que, realizado em parceria com o Eng. Monge Soares, Manuela Deus e Ana Sofia Antunes tem como objectivos dar a conhecer a cultura material identificada e procurar o seu enquadramento crono-cultural através da realização de datações de radiocarbono.
  • Estudo dos silos medievais/modernos da Rua do Jardim - Lagos, procurando-se para além da análise do espólio cerâmico (produção local e de importação) e metálico, o estudo da fauna mamalógica, malacológica e ictiológica. De forma a proceder ao efectivo enquadramento cronológico da cultura material identificada, irão ser efectuadas uma série de datações absolutas.

Encontro Arqueologia e Autarquias

Apresentação da comunicação "Intervenção arqueológica no Alto do Cidreira, Cascais - um exemplo de interacção Arqueologia - Autarquia - Proprietário", em conjunto com o gabinete de engenharia e arquitectura Traço d'Obra. Procurou-se, tendo por base o exemplo da intervenção arqueológica na zona de protecção da villa romana do Alto do Cidreira (Carrascal de Alvide - Cascais), ilustrar os aspectos positivos e negativos dos processos de orientação e gestão por parte da admnistração central e local, bem como a sua relação com a equipa de arqueologia e proprietários.


Sítio romano de Figueiras 4 - Serpa

A intervenção no sítio de Figueiras 4 (Serpa) permitiu identificar uma ocupação de cronologia romana, materializada em duas estruturas de pedra calcária, diversos interfaces escados no substrato geológico (valas, silos e outras estruturas de função indeterminada), bem como no vasto e variado espólio recolhido, na sua maioria cerâmico, osteológico e metálico.

Fossas/Silos da Idade do Bronze (Corça 2 - Serpa)

A intervenção arqueológica no sítio de Corça 2 veio permitir a identificação de contextos e materiais arqueológicos que permitem enquadrar este sítio no Bronze pleno/final. A tipologia e cronologia deste tipo de contexto encontra paralelos em vários sítios recentemente postos a descoberto no Alto e Baixo Alentejo. Sítios como o Casarão da Mesquita 3 (São Manços, Évora), Monte da Pita 5 e 6 (Beringel), Monte da Cabida 3 (São Manços, Évora) ou Horta do Albardão 3 (São Manços, Évora), revelaram várias fossas/silos enquadráveis de época Calcolítica à Idade do Bronze. Em algumas (por exemplo no Monte da Cabida 3 e Casarão da Mesquita) foi possível identificar a presença de inumações na posição fetal em decubitus lateral. A analogia com Corça 2 é mais do que evidente, para além de estarmos perante o mesmo tipo de contextos (fossas/silos), os materiais arqueológicos associados a estes podem-se enquadrar num mesmo pacote crono-cultural Calcolítico/Idade do Bronze. Para além disto, foi possível tal como em sítios anteriormente referidos, registar a inumação de um indivíduo em posição fetal decubitus dorsal.

Sítio do Bronze final de Entre Águas 5 - Serpa

A intervenção arqueológica de emergência em Entre Águas 5 (Brinches, Serpa), um sítio de habitat de planície, revelou um conjunto de estruturas negativas - fundos de cabanas e bolsas – relativamente bem preservadas, contendo um vasto e diversificado espólio que permite uma aproximação a vários aspectos do quotidiano de uma comunidade do Bronze Final. Entre os elementos recolhidos destacam-se os numerosos fragmentos cerâmicos com ornatos brunidos e os ligados à actividade metalúrgica das ligas de bronze: cadinhos, nódulos de escória, algaravizes, artefactos metálicos. Uma análise, ainda que preliminar, dos contextos e materiais arqueológicos, bem como do seu enquadramento espacial e cronológico, permite desde já um aprofundamento dos conhecimentos relativos às ocupações em áreas abertas do Bronze Final no Sudoeste peninsular.